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Operação

Estações Repetidoras de Telefonia

[ Miguel Andrade - Agosto de 2000 ]


Mais do que relembrar aos radioamadores experientes o que é um repetidor, convém transmitir mais uma vez conceitos básicos, tendo não só tendo como destinatários os futuros radioamadores e todos aqueles curiosos ou interessados pelos aspectos das radiocomunicações, mas igualmente muitos colegas com anos de operação rádio e que ainda hoje não sabem como usar uma estação repetidora sem causarem involuntariamente por vezes transtornos às comunicações.
O que é uma estação repetidora de telefonia ?

A estação repetidora de telefonia do serviço de amador, ( mais conhecida simplesmente como repetidor ), é uma estação automática que recebe sinais numa frequência e os retransmite ( repete ), geralmente noutra, praticamente em simultâneo, sendo usada apenas em comunicações através da voz humana ( fonia ).

A vantagem deste serviço começa logo pela localização destas estações, ( quase sempre em pontos estratégicos como edifícios muito altos, cumes de serras ou picos nas montanhas ), o que tem como consequência ampliarem em muitas dezenas ou mesmo centenas de quilómetros o alcance das emissões dos seus utentes, quer se tratem de estações portáteis com modestas potências de emissão ou estações fixas que doutra forma não se poderiam comunicar devido a barreiras geográficas ou à simples curvatura da superfície da terra.

A legislação portuguesa define uma estação desta natureza como uma « estação de amador que permite repetir automaticamente emissões recebidas de outras estações de amador », (ver "Regulamentação").

Ainda de acordo com as normas aplicáveis, há condições técnicas a que estas estações estão sujeitas para funcionarem dentro da legalidade, pois a instalação e a utilização de estações repetidoras e de estações de radiobaliza só é em princípio autorizada pelo Instituto das Comunicações de Portugal ( I.C.P. ) em frequências consignadas, contidas nas faixas de 144 MHz-146 MHz e 430 MHz-440 MHz, contudo estão já a trabalhar actualmente estações desta natureza noutras bandas em situação legal.

A potência aparente radiada ( P.A.R.) das estações repetidoras de amador não pode exceder os 40 watts, para a faixa de frequências de 144 MHz a 146 MHz e os 60 watts, para a faixa de frequências de 430 MHz a 440 MHz, sendo as suas antenas obrigatoriamente de polarização vertical e omnidireccionais no plano horizontal.

Habitualmente quem acciona o processo de legalização e se responsabiliza pela montagem e manutenção deste tipo de estação são grupos ou as associações de radioamadores.

Quanto às tipologias de trabalho em frequência podemos referir que há basicamente dois sistemas distintos, o monobanda e o de banda dupla ou banda cruzada.

No sistema monobanda, o repetidor recebe as estações na frequência de entrada ( a frequência de recepção do repetidor ) e retransmite esse sinal na frequência de saída ( frequência de emissão do repetidor ), encontram-se ambas separadas por uma margem de segurança técnica que permita ajudar a evitar o melhor possível interferências mútuas entre a emissão e a recepção, mas sempre dentro dos limites legais da mesma faixa de frequências atribuída ao serviço de amador.

No sistema de banda dupla ou cruzada, cada uma das frequências se encontram em faixas distintas. Em alguns casos, tanto a entrada como a saída do repetidor se fazem por uma mesma frequência em cada uma das bandas, como num conversor de frequências ( dispositivo que traduz as frequências de emissão e recepção para outras equivalentes numa faixa de frequências diferente).

Para que este tipo de estação funcione bem é vital que só um utente emita na frequência de entrada enquanto os restantes escutam, isto é, apenas uma estação pode ocupar o repetidor de cada vez, nunca duas ao mesmo tempo.

Com o nível a que a evolução técnica faz progressos actualmente não é de estranhar o aparecimento para breve de novos tipos de estações repetidoras de amador com canais de comunicação múltiplos e em simultâneo ( permitindo várias conversas ao mesmo tempo sem se interferirem ) e outros tipos de gestão de tráfego como a comunicação nos dois sentidos em tempo real como acontece nos telefones celulares das redes móveis, o chamado " full duplex ".

Há ainda um tipo de estação repetidora do serviço de amador ( que dará assunto para outro artigo reservado só a esse tema ), o qual poucas vezes é considerado neste âmbito, ou seja, os repetidores de telefonia a bordo dos satélites artificiais de comunicações que trabalham em frequências das faixas atribuídas ao serviço de amador por satélite. Uma das principais diferenças é que estas estações repetidoras especiais apenas estão disponíveis acima do horizonte um tempo limitado pela sua órbita, altitude e velocidade em relação à superfície da terra, pois não têm uma posição geoestacionária como outros satélites de comunicações.

O que é necessário para se trabalharem estações de amador repetidoras de telefonia ?

Para se fazer uso de um repetidor temos que dispor de um equipamento emissor/receptor com a modulação certa ( geralmente frequência modulada de banda estreita F3E ) e com capacidade para transmitir na frequência de entrada do repetidor recebendo na frequência de saída do mesmo de uma forma automática. Em alternativa podem ser usados dois aparelhos um para cada função pois não é prático andar a comutar frequências manualmente sempre que se precise de emitir e depois voltar de novo à frequência de recepção.

Esta diferença que separa a entrada e a saída do repetidor é hoje controlada de uma forma automática por todos os rádios comercializados no mercado, pelo que o radioamador apenas tem que se preocupar com uma programação muito simples num canal de memória escolhido para o efeito no seu emissor/receptor, onde insere os dados relativos a um determinado repetidor no que diz respeito à frequência de saída e ao intervalo a respeitar para que em emissão o seu equipamento possa estar a usar a frequência de entrada dessa estação repetidora. Como existem canais pré definidos internacionalmente para repetidores é fácil determinar essa correspondências e teoricamente localizar estações deste tipo ao nosso alcance em viagem e em regiões ou países onde se desconhecem as frequências dos repetidores locais, ( desde que as entradas dos mesmos não estejam protegidas com tonalidades de acesso ).

Os tons ou tonalidades de acesso são sinais enviados de forma inaudível pelo emissor no início ou durante a operação de activação da entrada de um repetidor. Há vários tipos de de sistemas destes que têm como função seleccionar os sinais de entrada numa estação repetidora do serviço de amador, bloqueando o acesso a todos sinais não identificados. Estas entradas condicionadas são úteis sobretudo naqueles locais em que há maior risco de interposição entre repetidores ou de perturbações de outra natureza interferente.

Se por um lado nem todos os equipamentos tinham, até há bem pouco tempo, possibilidade de fazer uso das tonalidades universalmente usadas, por outro lado nem todos os repetidores estão ainda hoje protegidos.

Procedimentos simples para se operar através de uma estação repetidora.

As estações de amador repetidoras de telefonia são um meio muito eficaz, fácil e popular de comunicação, mas nem por isso a sua operação está livre de normas.

Se actualmente todos os radioamadores tivessem formação para cumprir esses procedimentos valeria a pena passar algum tempo a escutar a sua operação em repetidores antes de nos fazermos comunicar por essa meio. Infelizmente cada vez mais se encontram radiamadores que se recusam usar repetidores pela conduta de alguns outros que não respeitam sequer os fundamentos básicos da legislação sobre radioamadorismo.

Os procedimentos seguintes, longe de pretenderem tornar-se uma norma de conduta, podem ajudar a melhorar o tráfego das comunicações :

1. Use e abuse da educação sem exageros. Através do repetidor a sua voz chegará muito longe e a sua reputação também. Estão sempre muitos ouvidos à escuta nestas frequências ( até mesmo os das autoridades ). Nunca emita música, palavras obscenas ruídos impróprios aos bons costumes ou tenha actitudes que são proíbidas por lei às comunicações dos radioamadores e sobretudo nunca use um repetidor sem se identificar.

2. As chamadas em repetidores devem ser o mais breve possíveis, dadas as características das comunicações por este meio e pelo facto de não haver dificuldades de propagação, desvanecimentos de sinal e outras justificações para serem repetidos muitas vezes os indicativos de estação.

3. Nunca faça emissões mais prolongadas do que 2 minutos sem pelo menos fazer uma pausa de alguns segundos antes de prosseguir de novo. Alguns repetidores estão mesmo temporizados por motivos técnicos, pelo que os mais faladores correm o risco de serem interrompidos à força por uma pausa automática ficando algum tempo em silêncio a meio de uma frase sem se aperceberem disso. O mais importante nesta regra é que mesmo que tal não aconteça, lembre-se que um repetidor de amador é um elo de utilidade pública nas comunicações, pelo que a qualquer momento outros podem precisar de usar esse meio até por motivos de urgência. ( Lembre-se sempre de quantos colegas andam na estrada naquele momento e podem necessitar de ajuda súbita ).

4. Entre o final da intervenção anterior à sua e o início da resposta que vai dar, deixe sempre algum tempo extra para qualquer estação que precise do repetidor a fim de lançar uma chamada ou juntar-se à conversa em curso se poder anunciar.

5. Se o repetidor estiver ocupado por dois ou mais radioamadores em comunicação transmita uma vez apenas o seu indicativo de estação no espaço entre duas intervenções. Se não tiver sido escutado tente novamente. Em caso de emergência use as expressões de comunicação que a lei define para esse efeito.

6. Se estiver a meio de uma conversação e outra estação solicitar uma oportunidade, deve ser dada prioridade a quem acaba de chegar.

7. Se apenas necessita de fazer uma chamada em busca de alguém conhecido e interrompeu outros colegas limite-se a chamar duas vezes. Se não escutar qualquer resposta retire-se agradecendo. Se encontrar resposta por parte da estação pretendida então liberte a frequência o mais rapidamente possível combinando outro repetidor ou uma frequência simples para prosseguir o contacto, agradecendo a todos antes de se retirarem.

8. O repetidor trabalha em frequências das faixas atribuídas ao serviço de amador, por essa razão as comunicações através destas estações não estão livres dos procedimentos legais. Mesmo que ninguém se faça ouvir por um prolongado período de tempo emita sempre o seu indicativo de estação ainda que apenas seja sua intenção receber o sinal de retorno da estação repetidora durante algum ensaio. Nesse caso, é hábito ( sobretudo noutros países ), os operadores de estação darem a conhecer as suas intenções aos restantes colegas e autoridades dizendo após o seu indicativo de estação que estão a trabalhar nos seus equipamentos ou antenas; qualquer coisa como ... « CT??? estação em testes, obrigado ».

9. Se o repetidor estiver desocupado, pode ser usado como meio para se localizar um amigo ou fazer uma chamada geral ( porque não ? ). Este acto de solicitar contacto com qualquer estação disponível que se encontre em escuta é tão válido para uma tentativa de contacto em longa distância nas ondas curtas como para um radioamador em viagem que queira companhia numa região onde o seu alcance em VHF ou UHF não seja suficiente para falar com os seus conhecidos, por essa razão responda a estas chamadas.

10. Um repetidor é sobretudo um meio de auxílio de comunicações para as estações do serviço móvel e portátil, dê-lhes prioridade se está em serviço fixo.